Davi
O rei que fez nascer Israel
A importância da figura de Davi ultrapassa o aspecto histórico: muitos salmos serão atribuídos a ele, de modo a transformá-lo num modelo de fé.[1]
Davi é uma das principais figuras da Bíblia. Somente no texto da Bíblia Hebraica ele é citado mais de mil vezes, sendo o terceiro nome próprio mais citado, atrás de Javé e Israel. Em 1983, no norte de Israel, foi descoberta uma estela, escrita em aramaico, atribuída a Hazael, rei de Damasco e datada de 853 a.C. Nela encontramos a referência à vitória sobre os reis “da casa de Davi”. Datado de pouco mais de meio século após a morte de Davi, temos aqui a primeira, quiçá única, confirmação histórica acerca de Davi.
Se não olharmos para a Bíblia como material de informação, pouco saberíamos de Davi. Ao contar a história de Davi, percebemos que a Bíblia divide a narrativa em três seções. Na primeira fala da chegada de Davi ao trono, a segunda narra histórias acerca da Arca da Aliança e a profecia de Natã sobre a casa de Davi e a terceira narra a sucessão ao trono de Davi, com a revolta de Absalão e como Salomão herda o trono do pai.
A ascensão de Davi
A chegada de Davi ao trono coincide com o enfraquecimento da influência do Egito, a partir do fim do reinado de Ramsés III (1206–1175 a.C.), o que fortalece a criação de um Estado entre o Egito e a Assíria, duas superpotências que não poderiam se render ao embate tendo entre elas um Estado legitimamente constituído e com exército estabelecido.
É do alto de um dos montes da Judeia, treze quilômetros de Jerusalém, da pequena cidade de Belém, que vem o primeiro grande rei de Israel. O livro de Primeira Samuel nos apresenta o jovem pastor, escolhido pelo profeta Samuel, que se torna escudeiro de Saul e que, após o relato do conflito com Golias, se torna inimigo de Saul e é perseguido por ele, por conta da atitude neurótica e de intensa suspeita deste. Por outro lado, temos o relato de uma subida pelas armas. Aliado aos filisteus, Davi conquista o sul de Judá e, após a morte de Saul, tem as condições plenas para unificar as tribos do norte e do sul pela primeira vez, sendo uma unidade que não duraria por muito tempo.
Jerusalém, a marca da consolidação
Por volta de 1.000 a.C. Davi conquista Jerusalém. Aqui, precisamos lembrar que Jerusalém é uma das muitas cidades-Estado que existiam na região dos Cananeus e, ao tomá-la, Davi conduz para lá a Arca da Aliança e ali estabelece a capital de seu reino. A tomada de Jerusalém, no entanto, não foi aleatória. A cidade, além de estar estrategicamente sobre os montes, ela está exatamente no meio do caminho entre as tribos do sul e do norte. O que Davi queria passar, ao estabelecer Jerusalém como capital, era sua imparcialidade no reinado, frente aos conflitos de interesse entre as regiões.
Os filisteus, antigos aliados de Davi na conquista, foram derrotados por ele. As campanhas militares dentro e fora de seu reino serviram mais para consolidação das fronteiras e reconhecimento externo de seu reinado. Com a consolidação das fronteiras, se consolida também a estrutura estatal, basta ver a relação de funcionários em 2 Samuel 8.15–18 e 20.23–26. Pela primeira vez o ajuntamento de tribos se consolida em um reino.
O Deus de Davi
Davi foi o grande unificador das tribos e consolidou Israel como Estado, isto significa que ele teve que lidar com a diversidade de correntes teológicas dentro de seu Reino. Lembremos que nas aulas sobre a formação do Antigo Testamento falamos das correntes que formaram o Pentateuco e entre elas haviam os Javistas e os Eloístas. Nos tempos de Davi, ainda era tudo misturado. Podemos constatar isto no próprio texto bíblico, quando apresenta a relação dos filhos de Davi, parte dos dezessete nomes são de origem cananeia e contêm o prefixo El. É difícil precisar, historicamente, quando o culto aos deuses cananeus deixou de estar presente em Israel. Segundo a arqueologia, eles conviveram por muito tempo. Davi, embora retratado como um unificador da religião de Israel, ainda assim conviveu com a diversidade religiosa cananeia e por ela foi influenciada.
Conclusão
A imagem de Davi foi mostrada pelos autores bíblicos como a de um grande estadista, conquistador, mas também de um homem repleto de falhas. O desenvolvimento de uma imagem humana e ao mesmo tempo divinamente ungida é a forma como o povo escolheu para retratar aquele que se tornou o pai da dinastia de Israel, confirmada por Deus em 2 Samuel 7.16:
Sua casa e seu reino continuarão para sempre diante de mim, e seu trono será estabelecido para sempre.
Assim, Davi se torna mais que rei na história de Israel, se torna uma figura messiânica, a ponto de séculos depois termos o registro dos evangelhos apresentando Jesus como “Filho de Davi”. Davi é sucedido pelo seu filho Salomão, de quem falaremos no nosso próximo encontro.
[1] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017




