Dinheiro!
Como viver o evangelho numa sociedade consumista
1.
Fomos acostumados, por conta do fantasma do comunismo, a achar que o capitalismo é a solução e, por ser o contraponto, ele é bom. Tenho uma notícia: não é não, e quem diz isso é Jesus. O capitalismo opera na lógica do acúmulo de riqueza. Jesus condena isso. Vem comigo para Mateus 6.24
Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro; será dedicado a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.
2.
Situado no coração do Sermão do Monte, Mateus 6:19-24 marca a transição de Jesus da piedade externa para as estruturas internas que governam nossa existência. Suas palavras não condenam a prosperidade, mas revelam a anatomia da segurança humana: Cristo não proíbe a posse, expõe a verdadeira adoração e define o senhorio. O texto demonstra que prioridades materiais, visão moral e lealdade espiritual são inseparáveis. O discipulado exige, portanto, reordenar conscientemente nossos tesouros, nossos olhos e nosso Senhor à luz da eternidade.
3.
Jesus sintetiza toda a seção dos versos 19-24 com uma declaração taxativa e inegociável. O verbo grego δουλεύειν (douleuein) não significa “trabalhar para” ou “colaborar com”; significa “servir como escravo”, implicando submissão total, lealdade exclusiva e obediência irrestrita. Jesus está dizendo: você terá um senhor. A questão não é “se”, mas “quem”. E Ele apresenta o segundo senhor não como uma entidade mitológica, mas como “Mamom” (μαμωνᾶς), termo aramaico que significa “riqueza”, “propriedade” ou “aquilo em que se confia”. Jesus personifica a riqueza não como um objeto neutro, mas como um poder rival que exige devoção. Na teologia reformada, compreendemos que a idolatria nunca desapareceu; ela apenas mudou de forma. Não adoramos mais estátuas de bronze ou ouro; adoramos funcionalmente o que nos dá segurança, identidade e propósito.
Quando o patrimônio se torna a fonte da tua paz, Mamom é teu senhor. Quando o sucesso profissional dita o teu valor, Mamom é teu senhor. Quando o medo da escassez controla as tuas decisões, Mamom é teu senhor. Jesus não está condenando a riqueza em si; Davi, Salomão, Abraão e os comerciantes justos das Escrituras possuíam bens. O que Jesus condena é a servidão à riqueza.
A instrução para nós, que vivemos em uma economia complexa e globalizada, é de discernimento estrutural. Como profissional, empresário, gestor de família, membro de igreja, como devo posicionar-me diante do dinheiro? A resposta bíblica é clara: o dinheiro é um excelente servo, mas um péssimo senhor. Ele deve ser gerenciado, não adorado. Deve ser canalizado, não acumulado. Deve ser visto como recurso de mordomia, não como mérito de identidade. A lealdade dividida é uma ilusão perigosa. Não existe cristianismo de meio período, nem discipulado de fim de semana, nem fé que coexiste pacificamente com um sistema de acúmulo de capital. Jesus exige entrega integral. E a boa notícia do Evangelho é que Ele não nos deixa sozinhos nessa luta. Cristo, que sendo rico, se fez pobre por amor de nós, nos liberta da tirania de Mamom e nos capacita, pelo Espírito, a viver com generosidade, contentamento e coragem. Servir a Deus não empobrece a alma; ela a enriquece com a única riqueza que o tempo não corrói e a morte não rouba: a comunhão com Deus.
4.
Jesus nos confronta com a impossibilidade da lealdade dividida, declarando que não podemos servir a Deus e às riquezas, pois Mamom exige devoção total, assim como Deus exige. Não é um chamado à abstenção de prazeres físicos e confortos materiais, mas à liberdade. Liberdade para trabalhar com excelência, sem idolatrar o sucesso. Liberdade para planejar financeiramente, sem viver na ansiedade. Liberdade para possuir, sem ser possuído. Liberdade para ofertar, não sabendo a mão direita o que faz a mão esquerda. Liberdade para doar, sem querer ver seu nome nas redes sociais. Liberdade para investir no eterno, sabendo que o céu não é um lugar distante, mas a direção para a qual nossa vida já caminha.
Como, então, viver o evangelho num mundo capitalista? Deixo três ações.
Primeira: realize uma auditoria espiritual das tuas finanças. Não para condenação, mas para clareza. Onde está o teu dinheiro falando mais alto que a tua teologia?
Segunda: estabeleça um compromisso intencional de generosidade. Não o que sobra, mas o que demonstra prioridade.
Terceira: cultiva uma visão singela. Alimenta-te da Palavra, participa dos meios de graça, presta contas a irmãos maduros, e rejeita as narrativas culturais que reduzem a vida ao consumo e à comparação.
O Senhor Jesus não te deixou órfão nesta jornada. Ele te deu o Espírito, a Igreja, a Palavra e a certeza de que o teu tesouro definitivo não está no banco, no patrimônio, na aplicação financeira, mas sim no Deus da nossa salvação. Onde está o teu tesouro? Que a resposta não seja uma frase decorada, mas uma vida reordenada. Que a luz dos nossos olhos seja clara, que o nosso coração esteja no céu, e que o nosso senhor seja, hoje e sempre, o Deus vivo e verdadeiro.
5.
A dica dessa edição é a leitura do texto Você sabia que no céu não tem cofre?, de minha autoria, escrita para uma revista de escola dominical nos idos da década de 2010.
6.
Se você chegou até aqui, quero primeiramente agradecer por dedicar um tempo para a leitura.
Você receberá os conteúdos que estão prontos e agendados, mas serão antecipados, encerrando em 4 de julho de 2026. O motivo? A Newsletter Café com Alecrim fará uma pausa, talvez, definitiva. Tenho questionado a Deus, nos últimos anos, sobre a relevância, necessidade e continuidade de meu ministério pastoral. No fim da manhã do 12º Domingo no Tempo Comum de 2026, tomei a decisão de começar a parar tudo o que fosse possível parar e que está vinculado ao “Pastor Giovanni”. Continuo questionando a Deus até que ele me responda.
Agradeço imensamente a todos que investiram no meu trabalho.
Agradeço imensamente a todos que leram meus textos e reagiram.
Agradeço imensamente a todos que leram meus textos.
Que Deus nos abençoe.



