Em tempos sombrios
Como ter fé quando a morte se faz presente
1.
O ano era 2024 e eu estava em um velório. Pastor oficia velórios, muitos, mas este me chamou muita a atenção. Era num prédio, onde vária salas serviam de velório. Ao encerrar o horário, retirava-se o caixão e dispensavam-se os presentes, abrindo espaço para o próximo. O caixão seguia para uma sala reservada, junto a outros caixões, para, de madrugada, ser levado para outra cidade, onde seria cremado. Sem tempo para velar, chorar e se despedir, quer no enterro, quer na cerimônia de cremação. Apenas aquele momento ao lado do corpo, que sai numa maca e desce pelo elevador. Esta situação toda me faz pensar em como lidamos com a morte e o que a ressurreição tem nos ensinar sobre isso. Vamos ao texto de Lucas 20.34-38
Jesus respondeu: “O casamento é para pessoas deste mundo. Mas, na era futura, aqueles que forem considerados dignos de ser ressuscitados dos mortos não se casarão nem se darão em casamento, e nunca mais morrerão. Nesse sentido, serão como os anjos. São filhos de Deus e filhos da ressurreição.
“Agora, quanto a haver ressurreição dos mortos, o próprio Moisés provou isso quando escreveu a respeito da sarça. Ele se referiu ao Senhor como ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’. Portanto, ele é o Deus dos vivos, e não dos mortos, pois para ele todos vivem”.

2.
O nosso texto é um trecho da discussão de Jesus com os saduceus acerca da ressurreição dos corpos. Diferente dos fariseus, os saduceus não criam na ressurreição. Se você ler o relato completo, verá que os saduceus estavam querendo por Jesus à prova, perguntando com qual marido a mulher que ficou viúva seis vezes se casaria na eternidade.
Jesus afirma que, após a morte, seremos como os anjos, filhos de Deus e filhos da ressurreição. São imagens que Jesus nos apresenta para compreender que, após cumprirmos nossa jornada aqui, seremos ressuscitados em um corpo eterno, não mais sendo necessário a reprodução humana e nem a continuidade da espécie.
Outra fala de Jesus que merece destaque é que “ele é o Deus dos vivos, e não dos mortos, pois para ele todos vivem”. O que Jesus ensina, com isso, é que Deus não vê a nossa temporalidade e mortalidade apenas, ele nos vê como fomos criados para ser, eternos.
Portanto, ao se referir a como Deus se apresenta em Êxodo 3.6, a saber “Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.”, Jesus está dizendo que Deus se fez presente na vida dos patriarcas e, ao mesmo tempo, os patriarcas já estão na presença de Deus. Não à toa os judeus tinham a expressão “no seio de Abraão”, para situar aqueles que morreram como já estando na eternidade.
A Bíblia nos garante a vida eterna, mas não nos dá muitas pistas de como será eternidade e como seremos. O que temos na Palavra de Deus deve nos bastar, pois a eternidade é a consequência para os filhos de Deus.
3.
Os tempos sombrios são retratados, ao longo da história de Deus com seu povo, de diversas maneiras. Desde o famoso “vale da sombra da morte” do Salmo 23, passando pela “noite escura da alma” descrita poeticamente por São João da Cruz no século XVI e chegando até um simples à “uma fase ruim” de nossos dias.
Use o termo que melhor se adequar, mas o fato é que todos passamos por momentos difíceis e, muitas vezes, sem explicações. A morte é uma dor inexplicável para os que ficam. Seja qual for a causa e a época da morte, nós não nos acostumamos com ela. Quando ela nos ronda de maneira tão próxima, e seguidamente, parece não haver esperança de que a dor e o luto passarão. É neste momento que somos convocados a crer e confiar.
Aprenda que a vida é feita de ciclos e, por mais que tentem nos roubar a natureza da vida, é impossível eliminar ou pular os ciclos da vida. O exemplo que dei na abertura é apenas um dos muitos encurtamentos e rompimentos com os ciclos naturais da vida. É preciso chorar os que partiram, ter a consciência do momento da despedida. Reduzir isso por questão econômica, para ganhar dinheiro ou colocar de volta as pessoas no mercado de trabalho, pois luto é prejuízo para seus patrões, é desumano. Mas a lógica do mundo é o lucro, não, a vida.
4.
Portanto, diante dos tempos sombrios da vida, seja cristão! Não admita que lhe roubem o direito às lágrimas e à saudade. Não transforme a morte num evento banal. Você não é seu CPF, você é uma pessoa, criada e amada por Deus, que sofre e, diante da dor, deve vivê-la e superá-la com a ajuda de Deus.
Quando a morte nos rouba alguém, não devemos vacilar nossa fé, nem abandonar a Cristo, pois ele passou pela morte e venceu. Nele temos a firme convicção de que com ele venceremos a morte, quando ela vier até nós.
A certeza da morte não deve nos apavorar, mas sim, nos colocar diante da realidade de que a vida tem seus ciclos e a morte é um deles. Após a morte, não saberemos como será, um mistério ainda incompreensível para nós.
Em Cristo temos a certeza da vida eterna. Até lá, temos a missão de viver a vida que Deus nos deu, passando juntos pela dor e reconhecendo que somente o Espírito Santo consolador pode nos ajudar em momentos de tristeza, angústia e separação. Quando os tempos são sombrios, escolha caminhar pela luz de Deus.
5.
A dica é um filme que fala sobre a vivência do luto: Lado a Lado. Jackie (Susan Sarandon) e Luke (Ed Harris), divorciados, tentam manter os filhos felizes após a separação. Luke vive com Isabel (Julia Roberts), sua nova namorada, que enfrenta resistência das crianças e da ex-esposa. Mas tudo muda com o diagnóstico terminal de Jackie. A notícia abala a família, despertando dor, arrependimentos e a necessidade de enfrentar o luto. Pegue a pipoca, os lenços e bom filme.
6.
Se você chegou até aqui, quero primeiramente agradecer por dedicar um tempo para a leitura.
À partir de hoje você receberá os conteúdos que estão prontos e agendados, mas serão antecipados, encerrando em 4 de julho de 2026. O motivo? A Newsletter Café com Alecrim fará uma pausa, talvez, definitiva. Tenho questionado a Deus, nos últimos anos, sobre a relevância, necessidade e continuidade de meu ministério pastoral. No fim da manhã do 12º Domingo no Tempo Comum de 2026, tomei a decisão de começar a parar tudo o que fosse possível parar e que está vinculado ao “Pastor Giovanni”. Continuo questionando a Deus até que ele me responda.
Agradeço imensamente a todos que investiram no meu trabalho.
Agradeço imensamente a todos que leram meus textos e reagiram.
Agradeço imensamente a todos que leram meus textos.
Que Deus nos abençoe.


