Os Samaritanos
O abismo entre judeus e samaritanos só aumenta
Durante esse período que assistirá ao fim do domínio persa, acentua-se o contraste entre judeus e samaritanos, já existente há algum tempo, que se transformará em um definitivo cisma religioso.[1]
Desde a aula O Reino dividido, que volta e meia menciono sobre a origem dos Samaritanos. De fato, é quando o Reino se divide e as dez tribos fundam o Reino de Israel, também chamado Reino do Norte, que se inicia essa separação e que ganha um reforço quando Israel é invadida e Samaria é conquistada, em 722 a.C. Os Assírios transformam a região em província de Samaria, status que será mantido pelos Persas posteriormente. No quando da invasão, foram assentados outros povos na região, o que gerou uma miscigenação entre judeus e estrangeiros.
Os Samaritanos se consideram os herdeiros legítimos da fé judaica. Não aceitam as obras pós-exílicas como textos e nem como regras das reformas de Esdras e Neemias, que consideravam rígidas demais. Ben Sirac, que escreve por volta de 180 a.C., nos mostra em seus textos o ódio dos judeus pelos samaritanos:
Que ele nos conceda a alegria do coração, e que a paz esteja com Israel agora e para sempre; para que Israel creia que a misericórdia de Deus está conosco, e que nos liberte quando chegar o dia. Eclesiástico 50.25–26
O que o Eclesiástico nos revela é que, para os judeus de Judá, os judeus samaritanos não considerados filhos de Javé e precisam se converter e crer que a misericórdia de Deus está com Judá, não com Samaria. Esta é apenas uma amostra do sentimento judeu acerca dos samaritanos. Na época das invasões assírias, os judeus do norte se recusaram a lutar ao lado dos judeus do sul, e vice, e versa. O cisma, iniciado na divisão dos reinos, foi intensificado por uma série de acontecimentos históricos, que passamos por eles em todas as aulas. Chegamos, então, a um cenário onde a reconciliação vai se tornar cada vez mais impossível, visto que os recém chegados exilados do Reino do Sul agora se portavam como os verdadeiros herdeiros da fé judaica e aqueles que preservaram esta fé de maneira inabalável. Neemias se torna um perigo para Samaria, pois, aos olhos dos samaritanos, toda ação de melhoria e reorganização em Jerusalém significaria uma afronta à regência samaritana na região. A província era Samaria, não Judá, que pertencia à sua jurisdição.
Por conta das questões políticas tensas, a religião também era campo de batalha entre os dois irmãos. De um lado, judeus do sul jamais admitiriam um samaritano dentro do Templo, pois são considerados estrangeiros e se tornaram impuros, por terem se miscigenados. Do outro lado, judeus do norte jamais admitiriam que os exilados seriam os verdadeiros herdeiros da fé em Javé e que o culto a Deus não poderia ser feito em outros locais. É no fim do período persa que os samaritanos erguem seu templo no monte Gerizim. A autorização para a construção foi dada por Dario III a Sanabalat III, governador da província de Samaria. Posteriormente, Samaria seria invadida e destruída pelos gregos, e Siquém se tornaria a cidade principal da religiosidade samaritana.
O Pentateuco Samaritano
“O senhor deve ser profeta”, disse a mulher. “Então diga-me: por que os judeus insistem que Jerusalém é o único lugar de adoração, enquanto nós, os samaritanos, afirmamos que é aqui, no monte Gerizim, onde nossos antepassados adoraram?” João 4.19–20
O diálogo entre Jesus e a mulher samaritana é revelador em diversos aspectos, principalmente para compreendermos as diferenças históricas entre judeus e samaritanos. Percebam que a fala da mulher samaritana nos revela que eles adoravam em Gerizim, conforme uma tradição de seus antepassados, ou seja, conforme uma história construída ao longo dos séculos de uma vivência de fé com base numa estrutura religiosa organizada. Tal estrutura possuí seus elementos fundamentais: o Templo em Gerizim, os sacerdotes e o texto sagrado, a saber, o Pentateuco, que nós conhecemos como Pentateuco Samaritano.
Os samaritanos não seguiam todos os textos do Antigo Testamento, mas somente o Pentateuco, que é muito similar ao Pentateuco que conhecemos, mas que possuem mais de seis mil diferenças entre eles, a maioria de caráter ortográfico e oral, mas nenhuma delas afeta o significado do texto. Em certa medida, o texto massorético, que é a base do Pentateuco como o conhecemos, difere da fonte Samaritana, que é mais parecida com a fonte da Septuaginta. No fim, as diferenças não são dignas de serem consideradas como relevantes para a divisão entre os dois povos, visto que se resumem a basicamente a mudança de termos para melhor compreensão, a interpolação de textos paralelos, dando primazia ao texto do Deuteronômio como base e o acréscimo de referências ao monte Gerizim, fundamentando sua visão teológica.
Conclusão
A divisão entre os samaritanos e judeus se tornou irreconciliável, mas a história tratou de fazer com que Jesus de Nazaré se tornasse aquele que colocou por terra a divisão entre os povos, pois nele não há acepção de pessoas. Isso não impediu, no entanto, que as diferenças continuassem. Ainda hoje encontramos um grupo que se consideram samaritanos, reduzidos a um número de cerca de 600 pessoas, centradas nas cidades de Nablus e Holon, no atual Estado de Israel. Além do contínuo preconceito dos judeus, sofrem ainda com a dificuldade dos casamentos consanguíneos, o que eles tentam resolver autorizando casamento com mulheres judias, o que traz dois problemas: o preconceito rabínico e a dissolução da genética. Voltando ao período de nosso estudo, a divisão começada na divisão dos reinos foi se intensificando pelos séculos e a chegada de Alexandre, o Grande, vai ser mais um elemento nessa relação conturbada.
[1] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017



