Renascer
Habacuque pedindo socorro — parte 2
Habacuque pedindo socorro — parte 2
⁷Vejo o povo de Cusã em aflição, e a nação de Midiã treme de terror. ⁸Foi com ira, Senhor, que feriste os rios e dividiste o mar? Estavas furioso com eles? Não! Vinhas em tuas carruagens vitoriosas! ⁹Pegaste teu arco e tua aljava cheia de flechas e dividiste a terra com rios. ¹°Os montes viram e tremeram, e as águas avançaram com violência. O grande abismo clamou e levantou bem alto as mãos. ¹¹O sol e a lua pararam no céu enquanto tuas flechas brilhantes voavam e tua lança reluzente faiscava. ¹²Marchaste pela terra com ira e, furioso, pisaste as nações. ¹³Saíste para resgatar teu povo, para libertar teus ungidos. Esmagaste a cabeça dos perversos e os descobriste até os ossos. ¹⁴Com tuas armas destruíste o líder dos que avançaram como um vendaval, pensando que o povo fosse presa fácil. ¹⁵Marchaste sobre o mar com teus cavalos, e as águas poderosas se agitaram. Habacuque 3.7–15
Notícias de tragédias naturais não são incomuns. Chuvas, furacões, maremotos. Acompanhando tais notícias, surgem a reboque sempre outras notícias sensacionalistas, que enfatizam principalmente o aspecto religioso. Quantas vezes não ouvimos que Deus mandou um furacão por causa do pecado das pessoas? Deus usa mesmo a natureza para exercer seu juízo? Se sim, em que contexto? Como Deus move e transforma a criação para sua justiça? Habacuque vê a terra ser transformada e modificada com a vinda da justiça de Javé. Como? Vamos ao texto.
Verso 7: Midiã e Cusã são termos sinônimos para definir a região ao redor do Sinai, onde nômades acampavam. A vinda de Javé fará estremecer tudo ao redor do santo Monte Sinai.
Verso 8: O profeta recorre poeticamente à imagem do confronto de Javé com a natureza; na verdade, creio que podemos até dizer da reação da criação à vinda de Javé. E o profeta começa mostrando a reação das águas.
Verso 9: A imagem de Javé montado num cavalo, como guerreiro libertador, nos lembra que, no início de sua profecia, Habacuque faz referência ao poder dos cavaleiros invasores.
Verso 10: A força da ação de Javé no continente faz o mar reagir e tremer.
Verso 11: Aqui, Habacuque faz uso da imagem do guerreiro que possui maestria com flechas e com lança.
Verso 12: Marcha pela terra, ou seja, pisa de maneira marcada e ritmada. Calcar é separar os grãos da casca com batidas ou pisadas fortes. Habacuque recorre a uma imagem rural bastante interessante. Não é um marchar qualquer, mas que faz separação, que rompe com o que está no caminho. É o debulhar a terra para semear novamente, fazer brotar nova vida.
Verso 13: Há uma tensão explícita entre o povo que será salvo e o perverso. O povo não se rende ao jogo de poder e violência, mas espera em Javé. Já o perverso sentirá o poder da justiça de Javé. Ao ferir o telhado e descobrir os fundamentos, o Senhor põe no chão toda a casa do opressor.
Verso 14: Este é um dos mais difíceis versículos de interpretar. Tanto a versão hebraica quanto a vulgata são imprecisas no registro da expressão “seus guerreiros”. A crítica tem o consenso de que o inimigo se destrói a si mesmo. A cena é a do guerreiro dando o golpe final para acabar com o dominado, mas inesperadamente Javé surge e derrota o opressor com sua própria arma.
Verso 15: Vindo do Sinai para exercer justiça, agora Javé se retira pelo mar, vitorioso.
Diante do cenário que o texto nos apresenta, vejamos o que nos diz a palavra de Javé por meio do salmo do profeta. A imagem predominante é a de Javé que vem para exercer justiça. Tal justiça se dá na libertação de tudo o que o profeta relatou como alarmante e aterrorizante até aqui. Dois aspectos desta imagem de Habacuque me chamam atenção
A primeira é como o profeta faz uso dos elementos da criação para mostrar a força pela qual Javé se move para exercer justiça. Tal forma de relato não é exclusivo da literatura bíblica, existem relatos da ação de outros deuses para castigar o povo que mostram a criação sendo elemento, quer de destruição, quer para exercer o juízo. O que Habacuque faz é trazer tal imagem viva para aquele povo, naquele tempo, sobre a ação de Javé, abalando os acampamentos, rasgando a terra e movendo as águas para exercer o juízo. Lembremos de duas imagens de justiça da história do povo de Javé que envolvem água: o dilúvio e a abertura do Mar Velho. Em ambas, a mão de Javé se faz sentir de maneira poderosa. Em ambas, as águas e toda a natureza reagem e obedecem ao Criador.
A segunda é a forma como Javé executa o juízo. Ele não vem para salvar o opressor. Ele vem para aniquilar o opressor, para colocar fim à opressão e o faz com as próprias armas do opressor. Javé não solucionará um problema de maneira pontual, ele solucionará de maneira definitiva e eficaz a opressão. O retrato pintado por Habacuque é uma cena cruel. O opressor vem com força para destruir o oprimido. Como uma tempestade que chega devastando tudo, o opressor se levanta para dar cabo do oprimido e o faz com crueldade, pois se satisfaz tanto em contemplar a morte do oprimido, que intenta matá-lo regozijando-se de alegria. Javé então surge, em meio ao sabor da vitória e da satisfação, e mata violentamente o opressor com suas próprias armas.
Habacuque nos revela em seu salmo que devemos suplicar a Javé pelo livramento e confiar que ele virá. Mais que isso, aprendemos a confiar que todas as ações de Javé estão determinadas, e ele age para que sua justiça seja feita. Confiar que Javé rege nossa vida é descansar nele em meio às tribulações, e, por mais difíceis que sejam, Javé não nos desampara. Ele não está distante de nós, ele está conosco, e esta expressão é mais que uma frase de efeito, é uma verdade realizada e já consumada em Cristo Jesus
Quantas situações não enfrentamos em que não conseguimos ver a mão de Deus? Parece que tudo está perdido. Acontece que, às vezes, quando “perdemos tudo”, Deus nos restaura sob a perspectiva do amor, misericórdia e da sua vontade. Não olhe para seus problemas como um fim, mas sim como a possibilidade de um recomeço, para que a mão de Deus nos conduza pela vida, resplandecendo sua luz.
Termino com os versos da Banda Kadoshi, que expressam bem a confiança daqueles que vivem pela fé, a aguardar a justiça de Deus:
Haverá para mim, pra você o amanhã
Brilhará outra vez o sol da justiça
Mesmo que a esperança venha a acabar
Sinto a mão de Deus a me segurar
O presente texto foi escrito para a aula de Escola Dominical da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, em 07 de agosto de 2020



