Vejam as multidões!
A soberana vocação nos mostra o campo e nos chama para a missão
Evangelho Segundo São Mateus 9.35—10.8:
³⁵Jesus andava por todas as cidades e todos os povoados da região, ensinando nas sinagogas, anunciando as boas-novas do reino e curando todo tipo de enfermidade e doença. ³⁶Quando viu as multidões, teve compaixão delas, pois estavam confusas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. ³⁷Disse aos discípulos: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. ³⁸Orem ao Senhor da colheita; peçam que ele envie mais trabalhadores para seus campos”.
¹⁰ ¹Jesus reuniu seus doze discípulos e lhes deu autoridade para expulsar espíritos impuros e curar todo tipo de enfermidade e doença. ²Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, também chamado Pedro, depois André, irmão de Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, João, irmão de Tiago, ³Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, o cobrador de impostos, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, ⁴Simão, o cananeu, Judas Iscariotes, que depois traiu Jesus.
⁵Jesus enviou os Doze com as seguintes instruções: “Não vão aos gentios nem aos samaritanos; ⁶vão, antes, às ovelhas perdidas do povo de Israel. ⁷Vão e anunciem que o reino dos céus está próximo. ⁸Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos e expulsem os demônios. Deem de graça, pois também de graça vocês receberam.
O trecho que lemos do Evangelho Segundo São Mateus 9.35—10.8 é uma ponte literária e teológica que encerra a narrativa dos milagres e do ministério de Jesus na Galileia e serve como o prólogo solene para o segundo dos cinco grandes discursos de Mateus: o Discurso da Missão.
A compaixão visceral de Cristo pela humanidade nos convoca a depender da soberania de Deus em oração e a participar ativamente de Sua missão, exercendo a autoridade delegada com a mesma graça gratuita que recebemos.
Para compreendermos a profundidade dessa verdade, vamos caminhar pelo texto em quatro pontos fundamentais, permitindo que a própria estrutura da Palavra de Deus molde o nosso pensamento e o nosso coração.
I. A realidade (Mateus 9:35-36).
O versículo 35 nos apresenta um resumo tríplice e perfeito do ministério de Jesus: Jesus andava por todas as cidades e todos os povoados da região, ensinando nas sinagogas, anunciando as boas-novas do reino e curando todo tipo de enfermidade e doença.
Observem a harmonia aqui:
• Jesus ensinava, o que implica instrução doutrinária, o fortalecimento da mente e do entendimento.
• Jesus anunciava, que é a proclamação solene, o anúncio oficial de que o Rei havia chegado.
• Jesus curava, demonstrando que o Reino de Deus não é apenas uma teoria filosófica, mas uma realidade que restaura o corpo e a vida.
Valorizamos a sã doutrina, a ortodoxia. O evangelho nos lembra que a verdadeira ortodoxia caminha de mãos dadas com a ortopraxia, a ação compassiva. Um cristianismo apenas intelectual é estéril; um cristianismo apenas assistencialista é cego. Jesus nos oferece o equilíbrio.
E qual foi a reação de Jesus ao ver as multidões? O versículo 36 diz: Quando viu as multidões, teve compaixão delas, pois estavam confusas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.
Aqui, precisamos fazer uma pausa e olhar para o texto original grego. A palavra traduzida como “teve compaixão” é ἐσπλαγχνίσθη (esplanchnisthē). Este termo deriva de σπλαγχνα (splanchna), que significa literalmente “vísceras” ou “entranhas”. No primeiro século, as entranhas eram consideradas a sede das emoções mais profundas e genuínas, mais que o coração ou a mente. Jesus não olhou para aquela multidão com uma pena intelectual, distante e fria. Ele sentiu uma dor visceral, um “nó no estômago” de amor e compaixão.
Ele os viu como “ovelhas sem pastor”. Esta é uma referência direta ao Antigo Testamento, Números 27.17 e Ezequiel 34. Jesus fez um diagnóstico teológico de Israel: a liderança religiosa, fariseus e saduceus, falhara miseravelmente. Tal diagnóstico ainda ressoa. O mundo continua exausto, aflito e sem direção, e a compaixão de Cristo por essa realidade continua sendo a mesma.
II. A soberania (Mateus 9:37-38).
Diante desse diagnóstico, Jesus não entra em pânico, nem propõe um plano de ação puramente humano. No versículo 37, Ele declara: A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos.
A metáfora agrícola da “colheita” carrega um sentido de urgência absoluta. Naquele tempo, quando a colheita estava madura, precisava ser recolhida rapidamente. Se os trabalhadores demorassem, a chuva, o vento ou as pragas destruiriam o que foi cultivado com tanto esforço. A colheita de almas é urgente. O tempo da graça é agora.
Mas vejam a genialidade teológica do versículo 38: Orem ao Senhor da colheita; peçam que ele envie mais trabalhadores para seus campos.
Jesus não diz: “Organizem um comitê”, ou “Façam uma campanha de recrutamento”, ou ainda “promovam uma conferência missionária” Ele diz: “Orem ao Senhor da colheita”. Quem é o dono da fazenda? É Deus. A missão não é uma iniciativa humana para salvar o mundo; é a participação humana no plano soberano e eterno de Deus.
É vital compreender que a oração não é apenas um exercício devocional ou um mero preparo emocional. A oração é o mecanismo divino, soberano e ordenado por Deus, para o recrutamento de trabalhadores. Quando oramos “envia trabalhadores”, estamos reconhecendo a nossa total dependência da soberania de Deus. Isso nos tira o peso do protagonismo e nos coloca no lugar de humildes cooperadores da graça.
III. O chamado (Mateus 10:1-4).
A resposta de Deus à oração do versículo 38 começa imediatamente no capítulo 10, versículo 1: Jesus reuniu seus doze discípulos e lhes deu autoridade para expulsar espíritos impuros
Aqui, a palavra grega para “autoridade” é ἐξουσίαν (exousia). É fundamental distinguirmos ἐξουσίαν (exousia) de δύναμις (dynamis). Δύναμις (dynamis) é o poder, a capacidade de realizar um feito. ἐξουσίαν (exousia), por outro lado, é a autoridade legal, o direito delegado de agir em nome de outro. Os discípulos não curariam ou expulsariam demônios por um poder que emanava deles mesmos, mas porque o Rei do Universo havia lhes dado a Sua credencial, o Seu direito legal para agir em Seu nome.
E quem são esses delegados? O texto lista os doze apóstolos, que é um escândalo para a lógica humana. Temos Mateus, um publicano, colaborador do Império Romano, considerado traidor e impuro pelo seu próprio povo. E, no mesmo grupo, temos Simão, o Zelote, um nacionalista revolucionário que dedicava sua vida a odiar Roma e a assassinar colaboradores como o próprio Mateus.
A graça de Deus é escandalosamente unificadora. No Reino de Cristo, as barreiras sociais, políticas e econômicas são destruídas. O mesmo Evangelho que salva o publicano corrupto é o que salva o revolucionário violento. Eles não se uniram por afinidade política ou de classe social; eles foram unidos pela autoridade e pela graça de um Salvador comum. Que mensagem poderosa que reúne diferentes gerações e realidades socioeconômicas sob a mesma cruz!
IV. A missão (Mateus 10:5-8).
Ao enviar os doze, Jesus dá instruções específicas. Nos versículos 5 e 6, Ele ordena: Não vão aos gentios nem aos samaritanos; vão, antes, às ovelhas perdidas do povo de Israel.
Podemos questionar: isso não é exclusivista? Não, isso é a prioridade histórica da aliança. O plano de Deus, como Paulo explicaria mais tarde em Romanos 1:16, é o Evangelho “ primeiro os judeus, e também os gentios”. Jesus estava consolidando a fundação do Novo Israel antes de ordenar a expansão universal das fronteiras, que viria plenamente após a Sua ressurreição.
E qual era a mensagem que eles deveriam proclamar? O versículo 7 responde: Vão e anunciem que o reino dos céus está próximo. O Reino dos Céus não é um lugar geográfico para onde vamos ou iremos. É a presença ativa, governante e redentora de Deus irrompendo na história humana através da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Onde Jesus está, o Reino está.
Finalmente, chegamos ao versículo 8, que estabelece a ética econômica e espiritual do Reino: Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos e expulsem os demônios. Deem de graça, pois também de graça vocês receberam.
A autoridade, o poder, a salvação e a graça foram dadas aos discípulos sem custo algum. Eles não compraram esse direito; foi um presente imerecido. Portanto, a replicação desse ministério também deve ser gratuita.
Este versículo é um baluarte teológico contra qualquer forma de mercantilização da fé. Somos bombardeados por teologias que transformam a graça de Deus em uma moeda de troca, prometendo bênçãos financeiras em troca de sementes de fé, ou que tratam o ministério pastoral como uma carreira de lucro. Rejeitamos veementemente o “evangelho da prosperidade”. A graça é gratuita. O chamado é gratuito. O serviço ao próximo deve ser motivado pelo amor, não pelo lucro. “De graça recebestes, de graça dai”. Esta é a economia do Reino, que subverte toda a lógica capitalista de consumo e acumulação.
Conclusão
Concluindo. Muitos de nós aqui somos maduros, carreiras estabelecidas, certa estabilidade financeira, ensino superior e, quem sabe, uma vida confortável. Há um perigo sutil nessa posição: o risco de nos tornarmos meros “consumidores” de culto, sommelier de liturgias. Podemos vir à igreja, apreciar a boa pregação, cantar os hinos com propriedade e voltar para nossas casas sem nunca sujar as mãos na seara do Senhor.
O evangelho de hoje nos confronta. Jesus não chamou os doze para serem espectadores de Seus milagres; Ele os chamou para serem participantes de Sua missão. A sua estabilidade não é um convite ao conforto espiritual, mas uma plataforma para o serviço. Os seus recursos, o seu tempo, a sua inteligência e a sua influência são ferramentas que o “Senhor da seara” deseja usar.
Talvez você se sinta como aquele publicano, marcado por erros do passado. Talvez você se sinta como o zelote, cheio de opiniões fortes e frustrações com o sistema. Ou talvez você esteja buscando direção, ou acha que seu tempo de serviço já passou. A palavra de Jesus para todos é a mesma: a colheita é grande, os trabalhadores são poucos, e a autoridade é dada por Ele.
Portanto, o meu apelo pastoral hoje é duplo. Primeiro, que voltemos à prática esquecida da oração missionária. Não ore apenas por suas necessidades pessoais, mas clame ao Senhor da seara: “Manda trabalhadores, e usa-me como um deles”. Segundo, que vivamos a ética da graça. Que nossas vidas, nossas famílias e nossos negócios sejam marcados pela generosidade, pela integridade e pelo serviço desinteressado, refletindo o caráter de Cristo.
Sermão pregado no Domingo, 14 de junho de 2026 na Comunidade Providência Divina da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil em Ribeirão Preto, a convite do acólito Luiz Claudio Campos Machado.



